Seção local da Associação de Geógrafos na região do ABC Paulista

Notas de um trabalho de campo na Vila Prudente

No dia 02 de agosto de 2026 aconteceu o trabalho de campo na Vila Prudente organizado pela AGB ABC.
O trabalho de campo teve início na Estação Vila Prudente do Metrô, construída sobre a área da antiga fábrica de papel e celulose. Foi explicado que o complexo industrial chegou a ter um processo de tombamento iniciado, porém este foi posteriormente cancelado para viabilizar a implantação da estação. A localização da fábrica era estratégica, sobretudo pela proximidade com o rio, elemento indispensável ao funcionamento das atividades industriais daquele período. No interior da estação encontra-se o painel “Cenas e Sonhos Latino-Americanos”, de Sérgio Ferro, utilizado como ponto de partida para refletir sobre como as transformações da paisagem urbana frequentemente apagam memórias e dificultam a compreensão dos processos históricos que deram origem ao espaço atual.

Ao longo da visita foi discutido que a memória da Vila Prudente passou por um intenso processo de apagamento histórico dos povos tradicionais presentes desde o período colonial, da população negra escravizada, além das próprias lutas operárias que marcaram a formação do bairro. O pesquisador Lucas Sanches (USP) comentou que, ao pesquisar documentos coloniais, levantou a hipótese de que a chamada “outra margem” do rio Tamanduateí, mencionada pelos jesuítas, pudesse corresponder à em parta a atual Vila Prudente. Embora tenha encontrado dificuldades documentais, localizou registros da presença de escravizados na região, relativizando a narrativa tradicional que atribui ao bairro uma origem exclusivamente italiana. Também apresentou notícias de jornais que registravam conflitos envolvendo populações negras e pobres residentes na Vila Prudente, indicando que o bairro já era percebido como uma periferia, ainda que relativamente próxima do centro da cidade. Essas fontes revelam grupos sociais que não aparecem na memória oficial do bairro.

A formação da Vila Prudente foi analisada a partir da atuação da família Falchi. A transferência de sua fábrica de chocolates do Bom Retiro para a região foi acompanhada do loteamento realizado em 1894, evidenciando uma estratégia típica da burguesia industrial, que combinava investimentos na produção e no mercado imobiliário. A escolha do espigão da Vila Prudente não ocorreu por acaso: tratava-se de uma área elevada, considerada agradável, com ampla visibilidade sobre a cidade e que possibilitava relativo isolamento, favorecendo maior controle sobre a força de trabalho. Embora não tenha sido criada uma vila operária nos moldes clássicos, o loteamento promovido pela família permitia manter os trabalhadores próximos às fábricas, ao mesmo tempo em que gerava lucros com a valorização da terra urbana. Os Falchi ainda financiavam a compra de terrenos e materiais de construção pelos operários, estimulando a autoconstrução e o endividamento dos trabalhadores muito antes de essa prática se consolidar na Região Metropolitana de São Paulo. As fábricas mantinham escolas próprias e a família disputou com a Light o direito de implantar e operar a linha de bondes, inaugurada em 1912, evidenciando seu interesse em controlar diversos aspectos da vida local.


O professor doutor Felipe Saluti (UFSJ) lembrou que os terrenos originalmente pertencentes à família Pedroso estendiam-se do Brás até as proximidades do atual ABC Paulista, sendo parte deles posteriormente incorporada pela família Falchi. Essa mesma família também promoveu loteamentos em outras áreas da cidade, como Penha de França, e mantinha estreita relação com a Hospedaria dos Imigrantes, favorecendo a chegada da mão de obra estrangeira. Os irmãos Sacomã também possuíam uma importante cerâmica na região. O próprio nome Mooca, utilizado anteriormente para designar toda essa área antes da criação da Vila Prudente, foi discutido tanto por sua possível relação com as “ocas” indígenas quanto pela abundância de argila, matéria-prima essencial para a indústria cerâmica.

Prof. Felipe enfatizou que, em São Paulo, a ferrovia construída originalmente para o escoamento da produção cafeeira, acabou tornando-se o principal indutor da expansão industrial. As obras de Caio Prado Júnior foram citadas como referência para compreender esse processo. Posteriormente, Pierre Monbeig foi lembrado ao comparar o crescimento urbano ao espalhamento de uma mancha de óleo, ilustrando a expansão fragmentada da cidade. Segundo o professor, a industrialização brasileira não pode ser interpretada apenas como resultado da substituição de importações, mas como uma complexificação de estruturas produtivas já existentes antes da Segunda Guerra Mundial. Após a morte de Getúlio Vargas, a flexibilização da importação de máquinas fortaleceu as multinacionais, ainda que grande parte dos equipamentos transferidos ao Brasil já estivesse tecnologicamente ultrapassada. Juscelino Kubitschek aprofundou esse processo, consolidando o papel das montadoras e das indústrias de autopeças. O historiador Marcelo Mondim lembrou que, décadas mais tarde, o arrocho salarial da ditadura militar e as políticas neoliberais das décadas de 1990 e 2000 contribuíram para o enfraquecimento definitivo do parque industrial paulista.


Durante o percurso também foram observadas diversas transformações recentes relacionadas à mobilidade urbana. Desde a gestão de Jânio Quadros existiria a intenção de “desatar o nó imobiliário” dessa parte da metrópole. O projeto Fura-Fila, concebido na gestão Paulo Maluf com apoio do Banco Mundial, possuía inicialmente um traçado muito mais amplo do que aquele efetivamente executado. Apesar de alterar significativamente a paisagem urbana, apresentou baixa capacidade de transporte. Seu traçado serviu posteriormente como referência para os projetos do monotrilho desenvolvidos nas administrações Serra e Kassab. Foi discutido que a estação terminal do metrô em Vila Prudente não solucionava plenamente os problemas de circulação, razão pela qual o prolongamento da linha acabou sendo substituído pela implantação do monotrilho.

Prof. Felipe destacou que a expansão do sistema de transporte foi utilizada como argumento para promover profundas transformações imobiliárias. O monotrilho provocou valorização aproximada de 140% no preço do metro quadrado da região e servido como instrumento para estimular a verticalização. Empresas adquiriram terrenos antecipadamente ao longo do traçado, esperando valorização futura. Das onze estações implantadas, apenas Oratório e Vila Prudente produziram o adensamento esperado. Esse processo, entretanto, também impulsionou a gentrificação e o aumento dos preços dos imóveis. Nesse contexto, prof. Felipe criticou a outorga onerosa por considerá-la um mecanismo que legitima construções acima dos limites urbanísticos sob a expectativa não realizável de captura parcial da valorização fundiária pelo poder público. Também observou que originalmente a Vila Prudente situava-se entre duas Operações Urbanas Consorciadas, sendo posteriormente incorporada à Operação Urbana Tamanduateí. Alterações no traçado da linha fizeram com que ela passasse pela área atualmente ocupada pela favela, enquanto conjuntos habitacionais do programa Singapura foram utilizados como limite entre as ocupações populares e a expansão das grandes vias.

A hidrografia apareceu como elemento central para compreender tanto a industrialização quanto os problemas urbanos atuais. O Ribeirão da Mooca e o Ribeirão das Vacas encontram-se na região da favela e posteriormente deságuam no Ribeirão dos Meninos, em direção a São Bernardo do Campo. A ocupação das várzeas, associada à canalização dos cursos d’água, à impermeabilização do solo e às deficiências do saneamento, contribuiu para tornar as enchentes um problema recorrente. Durante o percurso foi possível observar estabelecimentos comerciais equipados com grandes comportas para impedir a entrada da água durante as inundações. Também foi lembrado que a retificação do rio Tamanduateí provocou o deslocamento de diversas ocupações instaladas às suas margens, enquanto a construção de dois piscinões foi a saída tentada para reduzir os impactos das enchentes no bairro.


Outro aspecto importante discutido durante a atividade foi a dimensão social e cultural do bairro. Visitou-se a praça que marcava o antigo centro da Vila Prudente e o encontro dos rios. Foram apresentados os orfanatos mantidos pelos padres scalabrinianos, que acolhiam filhos de imigrantes acometidos por doenças como o tifo. Lucas relembrou o caso Idalina, desaparecida em uma dessas instituições, episódio que deu origem a diversas narrativas populares e foi explorado pelos movimentos anarquistas anticlericais. Também foi visitada a Paróquia de Santa Emídio, santo de devoção da família Falchi, e mencionado o importante acervo documental preservado pelo Círculo de Trabalhadores. Lucas ressaltou ainda a necessidade de incorporar a infância como categoria de análise nas pesquisas sobre a história dos bairros.

Na etapa final do trabalho de campo, a discussão concentrou-se na Favela da Vila Prudente, considerada uma das mais antigas da cidade, 1947, e a primeira oficialmente reconhecida pela Prefeitura. Bruno Cecílio apresentou as mobilizações comunitárias realizadas contra as desapropriações decorrentes da expansão do metrô, destacando que a resistência reduziu significativamente o número de famílias removidas. Prof. Felipe criticou o Estudo de Impacto Ambiental elaborado para a obra, argumentando que as audiências públicas tiveram caráter apenas consultivo.

Prof. Felipe ressaltou a importância de interpretar essas transformações articulando permanentemente as diferentes escalas de análise — da singularidade à totalidade, das ações do capital nacional e internacional. Já no último ponto do percurso, a entrada da estação de trem Ipiranga, ocorreu um encontro profícuo com Urubatan Odé, que estabeleceu paralelos entre as lutas da Favela da Vila Prudente e outras experiências históricas de resistência, como as do Quilombo Zumbi dos Palmares e Quilombo das Guerreiras no Rio de Janeiro.

Por Vitor Mendes Monteiro